Governadora em exercício, Celina Leão, anunciou estudo para fornecer tirzepatida a pacientes com obesidade mórbida; medida visa democratizar acesso a tratamentos de alto custo e reduzir filas de cirurgia bariátrica
O Governo do Distrito Federal (GDF) deu início a uma discussão estratégica para a saúde pública da capital ao anunciar, nesta quarta-feira (7/1), que estuda a incorporação de medicamentos à base de tirzepatida no Sistema Único de Saúde (SUS) local. A substância é o princípio ativo do Mounjaro, fármaco que tem revolucionado o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 em âmbito global. A declaração foi feita pela governadora em exercício, Celina Leão (PP), durante a inauguração de um campo de futebol sintético na Vila Dnocs, em Sobradinho. A proposta visa atender especificamente pacientes com obesidade mórbida que não possuem condições financeiras de arcar com o alto custo da medicação na rede privada.
O que muda com a proposta?
A iniciativa do GDF representa um passo significativo no reconhecimento da obesidade como uma doença crônica grave, que exige intervenção medicamentosa de ponta, e não apenas mudanças comportamentais. Segundo Celina Leão, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) já recebeu a solicitação para iniciar os estudos de viabilidade técnica e orçamentária para a criação de um protocolo clínico específico.
A intenção é democratizar o acesso a tecnologias farmacêuticas que, atualmente, são restritas a uma pequena parcela da população com alto poder aquisitivo. A governadora destacou que, embora o medicamento esteja disponível nas farmácias, seu preço elevado cria um abismo no tratamento de saúde entre as classes sociais. A medida buscaria corrigir essa distorção, oferecendo a tirzepatida como uma alternativa terapêutica para moradores do DF que enfrentam quadros severos de excesso de peso.
Como funciona a tirzepatida?
Para compreender a relevância dessa possível inclusão no SUS, é necessário entender o mecanismo de ação da tirzepatida. Diferente de outros medicamentos anteriores, como a semaglutida (presente no Ozempic), o Mounjaro atua como um agonista duplo. Isso significa que ele imita a ação de dois hormônios naturais do corpo humano: o GLP-1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon) e o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose).
Essa dupla ação potencializa os resultados. Enquanto o GLP-1 atua na saciedade e na redução do apetite, o GIP trabalha em conjunto para melhorar a secreção de insulina e o metabolismo de lipídios. Estudos clínicos internacionais demonstraram que a tirzepatida pode levar a uma redução de peso corporal superior a 20% em alguns casos, resultados que se aproximam aos obtidos por intervenções cirúrgicas. Ao introduzir essa tecnologia na rede pública, o governo local estaria oferecendo uma das ferramentas mais avançadas da medicina moderna para o controle metabólico.
Quem teria direito ao tratamento?
Embora o medicamento seja eficaz para perda de peso geral, a proposta anunciada em Sobradinho foca em um público específico e vulnerável. Celina Leão enfatizou que o alvo da política pública seriam pacientes com obesidade mórbida, citando exemplos de pessoas com 150 a 200 quilos.
A definição técnica de quem receberá o medicamento dependerá da elaboração dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) pela Secretaria de Saúde. Geralmente, o tratamento para obesidade no SUS segue critérios rigorosos, priorizando pacientes cujo Índice de Massa Corporal (IMC) represente risco iminente à vida ou que já tenham desenvolvido comorbidades severas, como hipertensão descontrolada, diabetes e problemas ortopédicos graves decorrentes do sobrepeso. A triagem desses pacientes deve ocorrer nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos centros especializados de endocrinologia da rede pública.
Qual o impacto econômico e social?
A justificativa para o investimento público em um medicamento de alto custo baseia-se na economia de longo prazo e na prevenção de complicações. Durante o evento na Vila Dnocs, a governadora argumentou que tratar a obesidade preventivamente é mais barato e humano do que lidar com suas consequências.
A lógica apresentada é que, ao fornecer a medicação, o sistema de saúde pode reduzir drasticamente a fila e a necessidade de cirurgias bariátricas. O procedimento cirúrgico, embora eficaz, é invasivo, caro, exige longos períodos de internação e recuperação, além de demandar acompanhamento vitalício. Além disso, a redução do peso corporal diminui a incidência de infartos, derrames (AVC) e internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), desonerando os hospitais públicos do DF. Portanto, o custo do fármaco seria compensado pela redução de procedimentos de alta complexidade.
O cenário da obesidade no Distrito Federal
O Distrito Federal apresenta índices de obesidade e sobrepeso que acompanham a tendência de crescimento nacional, tornando-se um desafio de saúde pública. O estilo de vida sedentário e a alimentação inadequada contribuem para o aumento desses números nas regiões administrativas.
A introdução da tirzepatida viria para somar a outras políticas já existentes. No entanto, especialistas alertam que o medicamento não é uma “cura mágica”. Para que o tratamento pelo SUS seja efetivo, ele precisará estar atrelado a um acompanhamento multidisciplinar, envolvendo nutricionistas, psicólogos e educadores físicos. A medicação facilita a perda de peso, mas a manutenção dos resultados depende de uma reestruturação dos hábitos de vida do paciente.
O contexto do anúncio em Sobradinho
O anúncio foi realizado em um contexto simbólico, durante a entrega de um equipamento esportivo na Vila Dnocs. A correlação entre esporte e saúde foi utilizada para reforçar a visão de um tratamento integral. Ao inaugurar o campo de futebol sintético, o governo sinaliza que a prevenção passa pelo incentivo à atividade física, mas reconhece que, para casos graves de obesidade, o esporte isoladamente pode não ser suficiente sem suporte medicamentoso.
A governadora em exercício citou que outros estados brasileiros já estão adotando protocolos locais semelhantes, o que pressiona o Distrito Federal a atualizar sua lista de medicamentos essenciais. A medida, se concretizada, colocaria a capital federal na vanguarda do tratamento endocrinológico público no país.
Próximos passos e expectativas
A partir de agora, a Secretaria de Saúde do DF deve conduzir análises farmacoeconômicas para verificar o impacto orçamentário da compra da tirzepatida em larga escala. Processos de licitação e a definição da logística de distribuição — provavelmente restrita às Farmácias de Alto Custo — são etapas burocráticas que devem ocorrer nos próximos meses.
Para a população que aguarda na fila do SUS por uma solução para a obesidade, a notícia traz esperança. A possibilidade de acesso gratuito a um tratamento que hoje custa milhares de reais por mês na rede privada representa não apenas uma questão de saúde, mas de justiça social e equidade no acesso aos avanços da ciência médica.

