Estratégia da Secretaria de Saúde utiliza biotecnologia para reduzir casos de arboviroses na capital; método impede desenvolvimento do vírus no vetor e reforça combate à epidemia
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) concluiu uma etapa importante no enfrentamento às arboviroses com a liberação de 13 milhões de mosquitos Aedes aegypti modificados com a bactéria Wolbachia. A ação, realizada ao longo das últimas 13 semanas, integra um plano estratégico robusto para conter o avanço de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela na capital federal. O uso dos chamados “Wolbitos” representa uma aposta na biotecnologia como ferramenta de saúde pública, visando diminuir a transmissão viral por meio da substituição gradual da população de vetores selvagens por insetos incapazes de transmitir os patógenos.
O que são os mosquitos com Wolbachia?
A estratégia baseada na utilização da Wolbachia é considerada uma das inovações mais promissoras no combate às doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. A Wolbachia é uma bactéria intracelular presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos no mundo, como borboletas e libélulas, mas que não é encontrada nativamente no mosquito transmissor da dengue.
Quando introduzida nos mosquitos Aedes aegypti, a bactéria atua bloqueando a capacidade do inseto de transmitir vírus. Isso ocorre porque a Wolbachia compete por recursos dentro das células do mosquito, dificultando que vírus como os da dengue, zika e chikungunya se repliquem e se instalem no organismo do vetor. Sem a replicação viral adequada, o mosquito pica o ser humano, mas não consegue transmitir a doença.
O diferencial sustentável dessa tecnologia reside na hereditariedade. Ao serem soltos no ambiente, os “Wolbitos” — como são popularmente chamados — se reproduzem com os mosquitos selvagens locais. A bactéria é então transmitida da fêmea para os filhotes, garantindo que as próximas gerações de mosquitos também nasçam com a Wolbachia e, consequentemente, sem a capacidade de transmitir doenças. Com o tempo, a tendência é que a população de mosquitos inofensivos se torne predominante, criando uma barreira biológica de proteção para a população do Distrito Federal.
Qual é o cenário da dengue no Distrito Federal?
A implementação intensiva dessas tecnologias surge como resposta a um cenário epidemiológico crítico enfrentado recentemente. O ano de 2024 foi marcado por uma severa epidemia de dengue no Distrito Federal, que sobrecarregou o sistema de saúde e gerou preocupação em todas as regiões administrativas.
De acordo com os dados consolidados, a doença infectou ao menos 283.841 pessoas na capital no ano passado. O impacto mais doloroso, no entanto, foi o número de vidas perdidas: mais de 400 mortes foram confirmadas. As estatísticas apontam para um aumento alarmante de 815,40% no número de óbitos em comparação com o notificado em 2023. Esses números evidenciam a necessidade urgente de diversificar as estratégias de combate, indo além dos métodos tradicionais.
Embora o início de 2025 já demonstre uma redução nos casos de dengue, a vigilância permanece constante para evitar novos surtos. O trabalho humano continua sendo um pilar fundamental. No último ano, 362 servidores da Vigilância Ambiental em Saúde realizaram um esforço hercúleo, visitando mais de 1,8 milhão de residências em todo o DF para orientar moradores e eliminar focos.
Como funciona a logística de soltura?
A operação para a introdução dos mosquitos com Wolbachia no ecossistema urbano do DF exigiu um planejamento logístico complexo e preciso. O programa registrou 14 semanas dedicadas à produção dos insetos em laboratório e 13 semanas focadas na liberação efetiva no meio ambiente.
Para cobrir o território previsto, foram estabelecidas 68 rotas semanais de distribuição. As equipes percorreram cerca de 14 mil pontos de soltura predeterminados, totalizando 813 viagens para garantir que os 13 milhões de “mosquitos amigos” fossem dispersos de maneira uniforme e estratégica. Essa capilaridade é essencial para garantir que os machos e fêmeas com Wolbachia encontrem os mosquitos selvagens em diferentes bairros e comunidades, maximizando o cruzamento e a perpetuação da característica protetora.
Quais outras tecnologias estão sendo aplicadas?
Além do controle biológico, a Secretaria de Saúde incorporou tecnologias químicas avançadas para proteger o interior das residências. Uma das principais ferramentas utilizadas em 2025 foi a Borrifação Residual Intradomiciliar (BRI). Diferente do “fumacê” tradicional, que atinge os mosquitos em voo na parte externa, a BRI cria uma camada protetora nas paredes internas das casas e estabelecimentos.
A tecnologia consiste na aplicação de um produto que adere às superfícies onde os mosquitos costumam pousar para descansar. Ao entrarem em contato com a parede tratada, os insetos são eliminados. O produto utilizado possui baixa toxicidade para seres humanos e animais domésticos, garantindo a segurança dos moradores, e permanece ativo por até 90 dias, oferecendo uma proteção prolongada. Neste ano, foram realizadas quase 60 aplicações dessa técnica, com foco prioritário em locais com grande circulação de pessoas, visando quebrar a cadeia de transmissão em áreas de alto risco.
O que são as Estações Disseminadoras de Larvicidas?
Outra frente de batalha contra o vetor é o ataque às larvas, impedindo que elas cheguem à fase adulta. Para isso, foram distribuídas e instaladas mais de 3,2 mil Estações Disseminadoras de Larvicidas (EDLs) em diversas regiões administrativas do DF.
Essas estações funcionam de maneira engenhosa, utilizando o próprio mosquito como transportador do veneno. A unidade é composta por um balde preto com água, uma boia e uma tela impregnada com Pyriproxyfen. Este composto é um inseticida análogo ao hormônio juvenil dos insetos, atuando como um regulador de crescimento.
Quando os mosquitos pousam na estação atraídos pela água, partículas do larvicida aderem ao seu corpo. Ao voarem para outros criadouros (como calhas, vasos de plantas ou pneus) para depositar seus ovos, eles acabam contaminando esses locais com o Pyriproxyfen transportado. O resultado é que as larvas nesses outros criadouros não conseguem se desenvolver até a fase adulta, morrendo antes de se tornarem vetores capazes de picar e transmitir doenças.
Como as armadilhas ovitrampas auxiliam no monitoramento?
O monitoramento da população de vetores é crucial para direcionar as ações de saúde. Nesse sentido, as equipes de vigilância instalaram mais de 3,8 mil ovitrampas em 2025. Essas armadilhas simulam o ambiente ideal para a reprodução do Aedes aegypti, servindo tanto para monitorar a quantidade de mosquitos quanto para eliminar os ovos.
A ovitrampa consiste em um pote preto contendo água e levedo de cerveja, mistura que atrai as fêmeas grávidas. Dentro do recipiente, há uma paleta de madeira onde os ovos são depositados. Embora a estrutura pareça um criadouro comum, ela é segura: o recipiente contém inseticida biológico que impede o desenvolvimento das larvas que eclodirem ali. Além de eliminar potenciais mosquitos, a contagem dos ovos nessas armadilhas fornece dados valiosos sobre a densidade de infestação em cada região, permitindo que a Secretaria de Saúde aja rapidamente em áreas críticas.
Qual o papel dos drones no combate à dengue?
A tecnologia aérea também foi integrada ao arsenal da Secretaria de Saúde. O uso de drones permitiu superar barreiras físicas que muitas vezes impedem a ação dos agentes de endemias, como terrenos baldios murados, imóveis abandonados ou telhados de difícil acesso.
Esses equipamentos auxiliam no mapeamento detalhado do território. Cada fotografia capturada pelos drones é analisada para identificar possíveis focos de água parada, como caixas d’água destampadas, piscinas não tratadas e acúmulo de lixo. Essa visão privilegiada permite ações de campo muito mais precisas e assertivas.
Ao todo, os drones realizaram varreduras em 22 regiões administrativas do DF. O trabalho resultou no mapeamento de mais de 2,1 mil hectares, identificando cerca de 3 mil possíveis criadouros que, de outra forma, poderiam passar despercebidos. Com essas informações, as equipes de solo puderam intervir diretamente nos pontos problemáticos, eliminando riscos à saúde coletiva.
A combinação dessas múltiplas estratégias — biológicas, químicas e tecnológicas — reflete um esforço contínuo para evitar que a tragédia epidemiológica de 2024 se repita, protegendo a vida dos cidadãos do Distrito Federal.

